O Jerez, hoje considerado por muitos enólogos um tesouro negligenciado no mundo do vinho, possui uma história tão intensa quanto os sabores que fizeram deste vinho um dos mais apreciados do mundo, durante muito séculos.
Sua denominação de origem é, sem dúvida, a mais comprida Jerez/Xérès/Sherry y Manzanilla de Sanlúcar de Barrameda, resultado de uma longa luta para proteção de seu nome. Luta esta que se deu em duas frentes, a histórica e a linguística.
Os primeiros habitantes da região de Jerez, os fenícios, a chamavam de "Xera" e foram eles que trouxeram as primeiras mudas de videiras. Com a chegada dos romanos a região passou a se chamar "Ceret". Com os muçulmanos, apesar da proibição Coránica (No Alcorão, Allah restringe o uso da bebida alcoólica), a região continuou sua produção com a desculpa de fazer passas e obter álcool para fins medicinais e passou a se chamar "Šeriš" (Sherish). Com a chegada dos reis católicos na época da reconquista, por volta do século XIII, o nome se castelanizou para "Xerez". Na época, as mesquitas que não foram destruídas ou viraram igrejas, foram transformadas em bodegas para produção do vinho.
Por incrível que pareça tiveram que esperar até 1 de janeiro de 1996 para que a União Européia protegesse oficialmente e definitivamente o nome deste vinho de qualidade. Um dos motivos que explica o fato é que diversos países chamam alguns de seus vinhos de Sherry com o objetivo de aproveitar a fama do nome, assim como muitos fizeram com o champanhe.
Ainda que o Jerez fosse conhecido na Inglaterra desde 1340, não virou moda até 1587, quando Sir Martin Frobisher, um dos tenentes do corsário Francis Drake (conhecido por ter derrotado a Invencível Armada, a maior força naval da Europa na época) atacou o porto de Cádiz, incendiou a maior parte das frotas espanholas e enriqueceu vendendo cerca de 3 mil barricas que roubou desse valioso vinho. Essa invasão de Sherry criou um mercado que cresceu exponencialmente durante quatro séculos. Doze anos depois desse fato, Shakespere escreve sobre a bebida na segunda parte da peça "Henrique IV" com seu personagem John Falstaff elogiando as virtudes e qualidade do Xerez.
"Um bom copo de xerez é de duplo efeito; sobe-me ao cérebro, seca-me ali todos os vapores tontos, obtusos e ásperos que o envolvem, deixando-o sagaz, vivo, imaginoso, cheio de formas leves, petulantes e deleitosas, que, entregues à voz, recebem vida da língua e se convertem em excelente espírito. A segunda propriedade do vosso excelente xerez é a de aquecer o sangue, que, por ser naturalmente frio e pesado, deixa o fígado branco e pálido, sinal certo de pusilanimidade e covardia; mas o xerez o aquece e o faz correr do interior para as partes extremas, ilumina o rosto, que, como farol que é, chama às armas a esse pequenino reino denominado homem. E então todos os moradores e os pequenos espíritos da província se congregam em torno do seu chefe, o coração, que, aumentado e envaidecido com o cortejo, se torna capaz de qualquer empreendimento de valor. Todo esse valor vem do xerez, a tal ponto que a habilidade no manejo das armas de nada vale sem o xerez, que é o que a põe em movimento. O saber não é mais do que uma mina de ouro guardada por um demônio, que só vale depois que o xerez a explora e a põe em obra e uso. E daí que vem a valentia do príncipe Harry, porque o sangue frio que ele herdou naturalmente do pai, tal como terreno mesquinho, desnudo e estéril, foi por ele lavrado, adubado e cultivado com o excelente esforço de beber grandes e grandes quantidades do fértil xerez, que deixou o príncipe ardente e valoroso. Se eu tivesse mil filhos, o primeiro princípio humano que lhes inculcava, seria absterem-se de bebidas fracas e entregarem-se ao xerez."
Esse sucesso, tirando é claro o período das grandes guerras, durou até 1979 quando a região exportava 150 milhões de litros. Porém, a imagem desta bebida associada a antiguidade e o excesso de vinhos de baixa qualidade no mercado fizeram com que as vendas despencassem. Hoje a realidade mudou e se recupera com uma exportação de 50 milhões de litros, sendo que a nova geração consome muito mais os xerez do tipo Finos e Manzanillas jovens, frescos, transparentes e com menor graduação alcóolica.
A região possui três tipos de solo: o arenoso, o calcário e o argiloso. O segundo é o mais valorizado, possui 40% de teor de carbonato de cálcio, que, por sua pobreza de nutrientes e boa absorção, propicia vinhos com bom corpo, de graduação alcóolica e acidez equilibrada, típicos de um grande Jerez.

Na região predominam as uvas Palomino (a mais utilizada), a Pedro Ximenez e ainda um pouco de Moscatel.
As Pedro Ximenez (que dão origem ao vinho de mesmo nome), são colocadas sobre placas de amianto, cobertas por um plástico e deixadas ao sol (soleo). Assim, acentuam seu teor de açúcar e após este processo são prensadas. Ao mosto sem fermentação adiciona-se aguardente vínica, se coloca para envelhecer em barris de carvalho e, desta forma, deve permanecer por alguns anos dando origem a um vinho doce, extremamente aromático e saboroso.
Chamadas de Listán, as uvas Palomino, também passam por um processo diferenciado. São esmagadas e fermentadas em "Botas Jerezanas" (barris de carvalho americano ) de 500 à 600 litros que são parcialmente cheias, ou seja, deixadas com ar em seu interior. Ao terminar a fermentação tumultuosa, aparecerá a "flor" uma película de cor branca amarelada de uma levedura do tipo Sacharomyces cujo desenvolvimento determina o tipo de vinho a ser produzido.
Desta forma, se a flor permanecer constante o vinho é encabezado (terá adição de aguardente vínica) e dará origem ao tipo FINO. Caso a flor se altere para uma cor branca grisalha e de espessura mais grossa, o vinho a ser gerado será do tipo AMONTILLADO. E, finalmente, os que não criarem a flor darão origem ao tipo OLOROSO.
As Soleras
A Solera nada mais é do que uma pirâmide formada por pelo menos três pisos de barris, normalmente com uma capacidade de armazenamento de 500 litros. As do nível inferior que se encontram na altura do solo correspondem à Solera. Delas não se pode nunca extrair mais do que 1/3 para comercialização, que deverá ser reposto com o liquido da barrica logo acima conhecida como primeira criadora.
O líquido retirado desta barrica do meio deve ser reposto com o da barrica do topo, a segunda criadora, que por sua vez deverá ser reposto com o vinho da última safra. Entre o início do processo e o término podem transcorrer de 5 anos a um século.
Os Vinhos
O FINO é o mais seco de todos os vinhos de Jerez e tem um sabor delicado e fresco da flor (levedura). Nas zonas costeiras não tão quentes, como Sanlucar de Barrameda onde o fino se chama Manzanilla, essa levedura cresce constantemente durante todo o ano contribuindo com uma grande quantidade de sabores sem afetar sua coloração amarelo palha. As zonas interiores, como a própria cidade de Jerez, são mais quentes, o que provoca a morte da flor de levedura no meio do verão e, como resultado os vinhos, são mais escuros e aromáticos. Normalmente se comercializam com um crianza (tempo de envelhecimento em barrica) de 5 à 10 anos.
O AMONTILLADO começa como um vinho FINO nas Soleras mas pode permanecer ali por muito tempo. Aos 25 anos adquirem uma cor mais escura e um aroma mais intenso ainda assim sem perder o sabor da juventude.
Sua graduação pode aumentar acima do limite suportado pela levedura por fatores ambientais, como temperatura e umidade, ou pela mão do próprio chefe da bodega. Conforme a flor desaparece o vinho entra em um envelhecimento oxidativo pois a capa da flor que protege este vinho desaparece deixando o liquido em contado direto com o ar. A mistura deste processo biológico e oxidativo dá origem ao amontillado.
O OLOROSO se obtém dos sistemas de Soleras mas sem criar a flor de levedura uma vez que é "encabezado' (adição de aguardente vincula) até alcançar os 17º, o que impede o seu desenvolvimento. Também são deixados em barricas com dois palmos de ar que, sem a capa criada pela flor, deixa o vinho em contato direto com o oxigênio dando origem a um de envelhecimento bem mais oxidativo. São mais escuros e possuem aromas mais intensos e potentes mas sem aumentar sua doçura. Este vinho é considerado um dos mais longevos do mundo e os melhores são aqueles que possuem um aspecto dourado, aromas de frutos secos e são ricos e intensos no paladar com um final longo e muito seco.
O PALO CORTADO é um variante pouco habitual. Um vinho que inicialmente era fino, ou seja, envelhecido com flor de levedura e que após certo tempo é"encabezado' (adição de aguardente vincula) novamente até alcançar os 17º perdendo assim sua capa de flor e se oxidando como um vinho oloroso. O resultado final é um vinho com caráter e sabor "amontillado" jovem e um final de boca seco de um "oloroso".
Meu reencontro com o Xerez
Minha redescoberta com o Jerez se deu a uns 10 anos quando um amigo me presenteou com uma garrafa do "La Guita", um Manzanilla produzido por Hijos de Rainera Perez Marin, muito especial.
Este vinho, que depois descobri ser muito barato, cerca de € 6 no Dutty Free de Madrid, passa pelo excepcional processo de envelhecimento que utiliza a levedura flor e o sistema de soleiras, ficando 3 anos em carvalho americano.
De cor dourada amarelo-limão brilhante, o vinho deixa a boca limpa e fresca. Apesar de muito seco tem aromas de fruta confitada, notas silvestres e florais, e frutos secos. O ideal é tomar bem gelado, entre 7 e 9 graus. Na boca, como acabei de dizer, é seco, fresco e nervoso, saboroso, equilibrado, muito aromático (no retrogosto com mais aromas para o nariz) e persistente.
É uma super pedida para abrir o apetite e/ou comer junto com uma azeitona, lula a dorê, ostras ou, até mesmo, um bom presunto. Mas não se iluda! Este vinho pode ir além, sendo harmonizado nos limites de sua imaginação. Por que não com uma salada, pescado em conserva ou mesmo um bom prato de salmão ou um risoto de frutos do mar? Infelizmente não o encontrei em nenhuma importadora no Brasil. Mas se você souber de alguém que venha da Espanha ou faça uma escala em Madrid vale essa encomenda boa e barata.