segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Entrevista com Blogueiros: Alexandre Frias (Enoblogs e Diário de Baco)

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Hoje temos um convidado muito especial, o empresário Alexandre Frias, idealizador e fundador do Enoblogs, comunidade de blogueiros de vinhos. Alexandre também escreve para o seu blog Diário de Baco. A dedicação de Frias em criar e manter esse sistema de indexação de blogs nos brindou com um espaço único para a troca de curiosidades, dicas e informações sobre o mundo do vinho, motivando nós, blogueiros, a escrever cada vez mais sobre o enomundo.

Nesta entrevista falamos sobre os sucesso do Enoblogs e seu estímulo ao enomundo. Além disso, Alexandre fala sobre o que ele gostaria de ver no mercado e em atividades sobre vinhos em São Paulo, e nos dá dicas de um livro imperdível e um vídeo muito divertido.

Espaço do Vinho: Alexandre, o Enoblogs se tornou hoje uma referência para muitos enófilos brasileiros. Mais de 250 blogs registrados em dois anos, milhares de acessos mensais. Quando você resolveu trabalhar com este sistema de indexação de blogs na Webcompany imaginava que iria alcançar estes números tão rapidamente?
Alexandre Frias:
Sinceramente não. O mais interessante mesmo, foi ver o quanto o Enoblogs motivou as pessoas a começarem a escrever sobre os vinhos e sua vida ao redor do vinho. As pessoas achavam que escrever sobre vinhos era uma atividade restrita aos profissionais e na web, através dos blogs, esse conceito mudou. Desde quando precisamos analisar tecnicamente um vinho jantando com os amigos? Não é por isso que não tenho o direito de escrever a minha opinião sobre o vinho que bebi considerando-o bom ou ruim, afinal, antes de mais nada, somos todos consumidores, assim como qualquer crítico de vinho.

EV: Você acredita que iniciativas como a sua propulsionam a criação de mais posts nos blogs? Poderíamos chamar de uma competição positiva e divertida que nos enriquece, no caso do enoblogs, em informações sobre o mundo vinho?
AF:
Como disse acima, o Enoblogs abriu a cabeça de muitas pessoas, tornando o fato de escrever sobre sua experiência com o vinho, uma atividade gratificante, pela troca de mensagens e experiências com os visitantes dos blogs. Não acredito em competição, acredito no aprendizado de forma colaborativa. Nunca aprendi tanto e tão rápido sobre vinhos, lendo os enoblogs.

EV: Algum vinho em especial foi responsável pelo seu ingresso definitivo no mundo do vinho?
AF:
Nenhum vinho em especial, mas sim uma viagem à Serra Gaúcha há alguns anos. Visitando algumas vinícolas, desde então, entendi com mais profundidade porque que o vinho é a bebida mais cultuada do mundo.
 
EV: O que você ainda não viu mas gostaria de ver no mercado e em atividades sobre vinhos em São Paulo?
Degustações gratuitas em ambientes públicos e ao ar livre.
 
EV: Qual livro sobre vinhos você recomendaria a um amigo enófilo? E por que?
AF:
Recomendo o livro "O Vinho mais Caro da História". Nada técnico, é um romance policial, que tem como tema central o leilão de garrafa de vinho da safra 1787, pertencente a Thomas Jefferson. Além de ter um texto envolvente, é muito interessante para entender como funciona o comércio de vinhos raros.
 
EV: Cite um vídeo imperdível disponível na internet sobre vinhos?
AF:
Um vídeo produzido pelos amigos e blogueiros Beto Duarte e Daniel Perches chamado "Aromas do Vinho". Eles foram buscar e provar às pessoas que os vinhos tem sim todos aqueles aromas que relatamos sempre. Para isso, eles foram conversar com as pessoas que realmente entendem de frutas e de aromas, no melhor lugar do mundo: a feira. Imperdível! 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 7 (A História do Champanhe)

Apresentamos no episódio de hoje a história do champanhe. No vídeo aprendemos que Champanhe é a região produtora de vinhos localizada mais ao norte da França. Reims, sua capital, está posicionada no centro de bifurcação de muita estradas, sendo um centro comercial importante desde o tempo dos romanos. Na idade média sua vasta produção têxtil fez com que essa região se tornasse ainda mais importante. Os condes medievais foram espertos suficientes para encorajar o comércio e fortes o suficiente para proteger seus viajantes mercadores. Desta forma, criaram as famosas feiras de Champagne. Apesar destas feiras terem sido principalmente voltadas ao mercado de tecidos, elas beneficiaram muito os vinhos desta região ao dar fácil acesso e bastante exposição a importantes mercadores de vinho da época. Com todo este investimento e prosperidade seu vinhos floresceram e em pouco tempo já era escoado em pouco dias pelo rio Marne para Paris, onde ficou famoso por sua leveza e, acima de tudo, sua fragrância. Essa super qualidade nasce de seu solo e de seu clima. O solo é calcário, tem excelente drenagem, a raízes se aprofundam e reflete a luz do sol para a vinha, o que ajuda as uvas a amadurecerem. O solo precisa ser enriquecido com adubos de estrume e demais resíduos orgânicos vegetais para a planta se desenvolver. A outra qualidade do calcário é sua facilidade de ser escavado e esculpido, o que permitiu a construção de quilômetros de adegas subterrâneas onde a temperatura se mantém estável, sem variações do verão ao inverno. Muitas destas adegas foram criadas há mais de 2 mil anos pelos romanos.

A região de Champanhe se divide em cidades produtoras de uvas brancas e de uvas tintas. O casamento destas duas variedades é que é o grande segredo do Champagne. Neste episódio Hugh visita as colinas de Cotes de Blancs em uma área voltada para cidades de Aÿ e Cramant. Esta região às margens sul do Rio Marne contribui para a produção das uvas brancas Chardonnay em contraste com a "Montagne de Reims", que atingiu seu apogeu com a produção Pinot Noir.

Em seguida, nos apresenta a Dom Perignon e sua uma contribuição para a origem do Champagne. Padre Perignon criou um dos maiores segredos para a qualidade dos espumantes, a técnica de misturar pequenas parcelas de vinho, de diferentes parreiras, chamada
assemblage, introduzindo ainda a uva tinta Pinot Noir e seu sabor maravilhoso, porém sem o tanino de sua casca gerando um Blanc de Noir (vinho branco de uva tinta). O segredo em tirar um puro vinho branco de um uva escura era ter certeza de que elas não estavam podres ou estragadas. Se elas estivessem, o vinho apresentaria uma coloração rosada. Essa triagem foi aperfeiçoada, porém hoje é muito mais simples pois a uva chega até a prensagem muito mais rapidamente. A prensagem tem de ser muito suave para romper a uva e retirar seu suco sem esmagar sua pele. São esmagados 4 toneladas de uvas por vez. Apenas o suco da primeira prensagem poderá ser utilizado para elaboração dos vinhos superiores, o que gera cerca de 2 mil litros de vinhos, ou seja, cerca de 10 barris bordaleses. Perignon ficou também conhecido como o pai da enologia, o criador do primeiro vinho espumante, o responsável por substituir as tampas de pano por rolhas de cortiça e idealizador de uma garrafa mais resistente. Dizem que sua capacidade gustativa era tão aguçada que ao botar uma uva na boca ele conseguia dizer de que colina ou vale ela provinha.

Outra figura importante no desenvolvimento do Champaghe foi uma jovem mulher chamada Mademoiselle Nicole Ponsardin, mais conhecida como Veuve Clicquot. Herdou e começou a administrar sua companhia própria de champanhe quando tinha apenas 27 anos, recém viuva de François Clicquot, herdeiro de Philippe Clicquot-Muiron, fundador da empresa que se tornaria conhecida como Veuve Clicquot. Foi a viúva quem definiu as quantidades exatas de leveduras que deveriam ser colocadas dentro da garrafa para que a produção de gás carbônico e álcool fossem na medida certa, evitando assim a pressão que normalmente explodia as garrafas. Clicquot foi também responsável pela criação do uso de pupitres (estruturas de madeira, normalmente de forma triangular, com dezenas de pequenas aberturas, onde são introduzidas as garrafas pelo gargalo), utilizados até hoje para 'colocar' os depósitos de leveduras na boca da garrafa. Finalmente, desenvolveu uma linha de produção para o champanhe. Uma vez que o vinho tivesse sido referendado e as leveduras mortas estivessem posicionadas na boca da garrafa, o champanhe estava pronto para o "Dégorgement" (degolar). Na operação, a borra (todas leveduras mortas e impurezas que estão posicionadas sobre a rolha) é expulsa pelo gás sob pressão da garrafa ao se retirar a rolha, fazendo que o vinho fique límpido e transparente. Certo volume de champanhe perdido é substituído por uma mistura de vinho e açúcar, chamado licor ou vinho de dosagem. A quantidade de açúcar presente no licor vai determinar se o champanhe será Brut, Sec ou Demi-Sec. Finalmente, é colocada a rolha definitiva e amarrado, na época, com uma corda. Neste vídeo temos uma representação de como este processo era feito no tempo da viuva Clicquot. Hoje, para retirar o depósito de borra, congela-se então o gargalo num banho de salmoura a -25ºC, tira-se a cápsula (uma tampa de metal como a de um refrigerante) e a borra congelada é expulsa pelo gás sob pressão evitando bastante o desperdício deste precioso liquido. Em seguida, a rolha é colocada e presa, hoje em dia, por um arame.

Champagne é identificado como um vinho de celebração como nenhum outro vinho no mundo. Ele cresceu com o desejo pelo luxo e o desejo pelo luxo cresceu com o champanhe. No fim do século XVIII a bebida transformou Reims e sua vizinha Epernay, em duas das mais prosperas cidades da França e, é claro, as mais importante da região de Champagne. Epernay tem uma Champs-Élysées de Maisons de Champagnes, entre elas Pol Roger, Bollinger, Krug, Louis Roederer, Pomery, Perrier-Jouët, Heidsieck & Co Monopole, Veuve Clicquot, Taittinger, Ruinart, De Castellane, Mercier, Mumm, Moët & Chandon.

Hugh termina este vídeo falando da Moët & Chandon e como Jean-Rémy Moët levou esta casa para uma clientela de elite pois era amigo e provedor de Napoleão Bonaparte e Josefina, para quem ele construiu uma cópia do Palácio do Trianon para que pudessem se hospedar em suas visitas.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Entrevista com Blogueiros: Luiz Cola (Vinhos e Mais Vinhos)

Continuamos nossa série de entrevistas com blogueiros com Luiz Cola, do blog Vinhos e Mais Vinhos. Um dos blogs mais ativos e mais participativos de nossa comunidade. Todo dia Luiz Cola nos brinda com diversos artigos interessante, sempre com informação de qualidade dicas, vídeos, promoções e avaliações de vinhos. Em algumas ocasiões podemos participar de jogos, como é o caso do quiz lançado em dia 14/fev, em comemoração ao 2º aniversário de seu blog. Este desafio para enófilos hoje já estava na 25ª pergunta. Seu blogue está sempre entre os lideres do ranking do Enoblogs.

Formado em arquitetura e, é claro, enófilo ativo, Luiz Cola participa de palestras e também é consultor de vinhos. Como ele mora em Vila Velha, no Espirito Santo, aproveitei esta entrevista para me informar mais sobre os eventos e sobre mercado de vinhos do Estado. Além disso, perguntei o que seria bem vindo por lá. Luiz deixou como sugestão a criação de um Wine-bar. Fica a dica para os empresários locais. Aproveitem!!!
Luiz-Cola

Espaço do vinho: Luiz, como surgiu a idéia de fazer um blog para falar de vinhos?
Luiz Cola: Aprecio e estudo sobre vinhos a cerca de 15 anos. Durante este tempo, além de muita leitura, acumulei bastante material retirado da internet e desde 2004 registrava todos os vinhos que degustava num banco de dados que elaborei para a plataforma Palm (cerca de 600 por ano). Em 2009, com o difusão de ferramentas para a criação dos blogs, foi um passo natural criar um, apesar de tê-lo tornado algo realmente cotidiano, em agosto de 2010.

EV: Qual livro sobre vinhos você recomendaria a um amigo enófilo? E por que?
LC: Para o iniciante, que apenas bebe vinhos ocasionalmente e quer saber um pouco mais, o livro Guia Ilustrado Zahar – Vinhos do Mundo Todo, bastante completo e com linguagem simples e direta.
Para um enófilo já “estabelecido no mercado”, sugiro o livro, lançado à pouco em português:
O Gosto do Vinho, de Emile Peynaud. Indispensável para quem quer aprofundar seus conhecimentos enológicos.

EV: Dê sua opinião sobre o mercado de vinhos no Espírito Santo. Há crescimento, diversidade de opções, estabelecimentos com idéias inovadores? O que você ainda não viu mas gostaria de ver?
LC: Ainda que o mercado de vinhos do Espírito Santo seja relativamente pequeno, de modo geral, o público consumidor é bastante exigente e conhecedor. Temos ótimas lojas como a Casa do Porto, Grand Cru e Ville du Vin, todas presentes em outros estados e outras menores, como a Enótria, focada num atendimento mais personalizado. Além delas, alguns supermercados, como as redes Carone e Perim, também investem firmemente no segmento de vinhos finos. O que ainda não temos por aqui é um wine-bar diferenciado, focado realmente no vinho...

EV: Quais são os eventos de vinho mais interessantes que ocorrem no no Espírito Santo, tais como feiras, degustações, confrarias entre outros?
LC: O grande evento do vinho no Espírito Santo sempre foi o Encontro Internacional do Vinho, que ocorria na região de montanha de Pedra Azul, com a apresentação dos maiores palestrantes nacionais e vários outros do exterior. No último ano, o evento foi deslocado para Vitória, para facilitar a sua logística, sempre complexa, devido ao grande número de vinhos raros e especiais que oferece. O outro evento, mais recente, e que vem ganhando força é a Vitória Expovinhos, iniciativa da Câmara do Comércio do Espírito Santo, voltada mais para a divulgação do vinho para o público em geral.

EV: Cite um vídeo imperdível disponível na internet sobre vinhos?
LC: Para rir: "Yoga for wine-lovers", (veja abaixo) e um para aprender: a série de vídeos da Millesima sobre os grandes Châteaux de Bordeaux. Imperdível também são os vídeos sobre a História do Vinho (Hugh Johnson), que você postou no seu blog antes de mim...

EV: Fale vinho de um vinho memorável você degustou? Algum em especial foi responsável pelo seu ingresso no mundo do vinho?
LC: Tive a sorte de degustar vários vinhos memoráveis, mas talvez dois dos mais inusitados tenham sido os que provei “por acaso” no restaurante Locanda della Mimosa, em 2000: um Château Mouton-Rothschild 1982 e um Château Cheval Blanc 1953. Provei um pequeno gole dos dois, e pouco me lembro deles (ah, se fosse hoje...), mas a “memória” do acontecimento, está vivíssima!
Um vinho responsável pelo ingresso no mundo do vinho? Essa vou repetir: o primeiro vinho de garrafão, provavelmente...



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 6

Hugh nos leva agora para Borgonha. Começamos uma discussão sobre o terroir desta região e a grande variação de preço na produção do vinho que ele pode ocasionar. Um professor de enologia da universidade de Dijon nos fala das diferenças do terreno nas colinas de Corton. Em seguida aprendemos que séculos de experiência e experimentos levaram os produtores a definir a Pinot Noir como a variedade tinta mais adequada para região. Isso ocorreu graças as ações como a do Duque Felipe, o Ousado, que, por conta de sua preferência pela Pinot Noir, proibiu o cultivo da variedade Gamay na região levando a uma migração do cultivo dessa uva para o sul da Borgonha.

Entrevista com Blogueiros: Álvaro Cézar Galvão (Divino Guia)

Caros leitores,

Começamos hoje uma série de entrevistas com alguns dos meus blogueiros prediletos que nos brindam cada vez mais com informações de qualidade sobre o universo do vinho. Meu objetivo é descobrir o que motiva e o que levou estes autores inspirados a dedicar tanto de seu tempo ao mundo do vinho. Além disso apresentaremos algumas sugestões e dicas oferecidas por eles. Um brinde a todos! Desfrutem…

Nosso primeiro entrevistado é
Álvaro Cézar Galvão, um enófilo apaixonado, sommelier por formação na ABS, que abandonou a carreira de engenheiro civil para trabalhar, como ele mesmo diz, com o emocional e lúdico universo da enogastronomia.

Foto alvaro01-Renato Rocha

Espaço do vinho: Álvaro, seu blog "Divino Guia" é uma referência para qualquer enófilo brasileiro. Como surgiu a idéia de fazer este blog?
Álvaro Cézar Galvão: Tinha um site que era com mais dois amigos com o mesmo nome, e como não entendo muito de web, precisava de uma ferramenta rápida e que dependesse só de mim para atualizar. Como já escrevia para algumas publicações e sites, sentia a necessidade de ter um veículo próprio, onde pudesse transmitir minhas experiências.

EV: No perfil de seu blog você diz que abandonou a carreira de engenheiro civil para trabalhar com o emocional e o lúdico da enogastronomia. Como isso aconteceu?
ACG: Justamente por ser alegre e divertida a aprendizagem, e com os estudos vi que além de tudo, o vinho, a gastronomia, mexem com o emocional, evocando memórias ofato-gustativas, lembranças marcantes...

EV: Algum vinho em especial foi responsável pelo seu ingresso definitivo no mundo do vinho?
ACG: Um Amarone, Bennatti creio, que começou muito áspero e que depois de alguns minutos foi se transformando e ficando macio... até se expressar por inteiro, maravilhoso. Isto me chamou muito a atenção.

EV: O que você ainda não viu mas gostaria de ver no mercado e em atividades sobre vinhos em São Paulo?
ACG: Melhores preços e melhor consciência dos consumidores e produtores. Além disso, um avanço dos vinhos brasileiros, batalha em que milito faz anos.

EV: Se tivesse que escolher um livro sobre vinhos, qual você recomendaria a um amigo enófilo? E por que?
ACG:Livros sobre o assunto são de um modo geral muito parecidos. Gosto dos autores Hugh Johnson, Jancis Robinson, Amarante e do meu mestre e primo Saul Galvão.
Escolheria o
Atlas do Hugh Johnson, e ficaria com ele a vida toda, pois o que mudam nas edições são só os rótulos, A técnica muito pouco as regiõs tbm, mas temos a web para nos atualizarmos. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 5

Hugh Johnson segue, neste quinto episódio, falando sobre Idade Media e o vinho. Começamos pelas viagens medievais feitas para transportar o vinho da França para Inglaterra. Embarcamos em um barco a vela de época e refazermos esta jornada nas mesmas condições em que os vinhos de Bordeaux viajavam em direção aos portos ingleses. Mais de 400 barcos paravam no porto desta cidade em outubro, todos os anos, levando milhões de barris de Claret (nome dado na época aos vinhos desta região).

Dando seguimento, Johnson nos fala da rivalidade de Bordeaux e
Saint-Émilion. O vinho desta última cidade, por causa de seu nível alcóolico um grau mais elevado do que os de Bordeaux, se conservavam melhor durante as viagem até a Inglaterra. Hugh nos apresenta a mais algumas características de Saint-Émilion, como o seu solo calcário que, além de produzir vinhos muito estruturados, permitiu a criação de caves subterrâneas fantásticas para o armazenamento e envelhecimento de seus vinhos.

Algumas caves, como vemos no vídeo, são catacumbas e apresentam tumbas ainda do tempo de um monge bretão, da região de Vannes, chamado Emiliano. O próprio Emiliano se estabeleceu em uma capela cavada nessa rocha calcaria no século VIII. Os monges que o seguiram deram início a produção de vinho na região e a cidade que se construiu acabou por receber seu nome.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 4

Seguindo nossa série de vídeos sobre a história do vinho, neste quarto episódio Hugh Johnson nos leva a um monastério medieval alemão da ordem de Cister chamado Eberbach, localizado nas montanhas de Rheingau. Johnson conta que os monges produziam vinho para a missa, para o tratamento médico, para entreter viajantes e também para negóciar.

Hugh explica como o monges na Europa foram os principais responsáveis pelo novo desenvolvimento da produção de vinho elevando este a uma qualidade que provavelmente os romanos nunca tiveram. Johnson nos fala também das qualidades do Riesling e continua apresentando alguns importantes processos para elaboração de vinhos de sobremesa na Alemanha.



Vinho e Arte

Ao longo dos últimos três mil anos obras artísticas de diferentes natureza nos mostram o valor simbólico que a vinha e o vinho representam para o homem. Da Antiguidade até a contemporaneidade explorando motivos sacros e profanos.

O vinho associou-se a fenômenos religiosos no mundo egípcio, grego, romano, judeu e cristão e foi empregado em diversas práticas religiosas, como oferendas, banquetes e rituais funerários. Por isso, podemos encontrar referências sobre a vinha e o vinho em diversos objetos e trabalhos artísticos indo da deusa egípcia Hathor, passando por Dionisio/Baco chegando a Cristo. Cráteras (cerâmicas) gregas, cálices eucarísticos, pinturas e até mesmo música sacra são encontrados adornados de motivos onde a Vitis Vinifera é a principal protagonista.

Ainda hoje os motivos mais representados são cenas de vindimas e o deleite do bebedor de vinho. Muitas vezes se misturam com cenas mitológicas clássicas como bacanais gregos e romanos.

A seguir três exemplos interessantes de arte antiga, renascentista e contemporânea que tive o privilégio de ver no
Museu do Vinho da Disnastia Vivanco na cidade de Briones em La Rioja na Espanha.

 
Sarcófago de mármore
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Frontal de sarcófago
Mármore
, Cultura romana, século III d.C.

 
As cenas representadas são a vindima e uma procissão dionisíaca. O deus Baco está representado como uma personagem idoso com um chifre na mão para beber o vinho. A procissão dionisíaca está composta por figuras que personificam os mistérios e cultos orgásticos da natureza. A máscara teatral situada entre as pernas das figuras, recorda-nos que Baco também é o deus do teatro, da comédia, da tragédia e do drama satírico.
 

Bacanal de meninos

 

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Jan Davidz. de Heem (Utrecht, 1606 – Amberes, 1684)
e Thomas Willeboirts Bosschaert (Berg-op-Zoom, 1614 – Amberes, 1654), Bélgica, 1654



Esta cena infantil está atribuída a dois artistas que trabalharam em colaboração. No norte da Europa, a representação de meninos era um canto alegórico à prosperidade. Ademais, a tradição clássica grega conta que os meninos participavam nos festejos dionisíacos. Na festa das “Coes”, que fazia parte das Festival grego das Antestérias, toda a comunidade bebia e os meninos recebiam seu primeiro jarro de vinho enquanto representavam episódios da infância de Dioniso. 

A bouteille de vin” (A garrafa de vinho)


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Pablo Ruiz Picasso (Málaga, 1881, Mougins, 1973)
- Paris, França - 1922



Pablo Picasso foi um dos artistas mais inovadores do século XX. Participou em todas as vanguardas emergentes das primeiras décadas sendo o grande impulsor do Cubismo. Nesta gravura reproduz um taverna cubista, onde vemos um cacho de uva e e uma garrafa de vinho.

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 3

Neste nosso terceiro capítulo, Hugh Johnson fala sobre o armazenamento do vinho em ânforas, vasos antigos de origem grega, normalmente de forma oval, contendo duas alças, confeccionados em barro ou terracota e muito usado pelos gregos e romanos. Em seguida, vamos a Pompéia, em visita a um bar romano e seguimos conhecendo os escritos de Plinio no livro "Naturalis Historia", um vasto compêndio das ciências antigas e que apresenta formas de cultivo de vitis vinifera e que em 1513 estaria sendo impresso como um livro de referência a ser utilizado na produção de vinho.

Neste vídeo, Hugh Johnson também nos apresenta a "Galen" (Claudius Galenus), um proeminente médico e filósofo romano de origem grega, e provavelmente o mais talentoso médico investigativo do período romano. Nos conta Johnson que para Galen o vinho era um importante antisséptico, tranquilizador e uma base para uma dieta saudável.

Continuando, cita o Talmud, um registro das discussões rabínicas sobre lei, ética, costumes e história do judaísmo, que considera que “onde o vinho faltar os remédios tornam-se necessários”.

Hugh também fala sobre a expansão do cultivo das vinhas em outras regiões conquistadas pelo império romano e mostra a riqueza arqueológica encontrada na rica costa do norte da Itália e do sul da França, que ainda hoje apresentam nas profundezas do Mediterrâneo milhares de ânforas de vinhos de navios naufragados romanos.

Para finalizar este terceiro episódio, Hugh fala da importância do desenvolvimento dos negócios, das conquistas e da difusão da cultura romana a partir da invasão do rio Rodano e demais rios e vales franceses fazendo com que o vinho nesta região alcançasse seu maior refinamento.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os vinhos orgânicos e biodinâmicos dos Vinhedos Emiliana

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Recentemente estive no Chile visitando o vinhedo "Los Robles" dos Viñedos Orgánicos Emiliana. O acesso era por uma estrada de terra e a sinalização, bem discreta. A sede do receptivo também era bastante modesta comparada com os acessos e receptivos mais glamourosos de outras bodegas da região como a Montes, Aphalta e Viu Manent. Logo fui apresentado à história desta propriedade, que começou em 1986 quando Rafael e José Guilisaste começaram sua pesquisa para encontrar os melhores vales para cada variedade de uva, na busca de uma produção de vinhos de excelente qualidade e personalidade. Assim surgiu primeiramente a "Bodegas y Viñedos Santa Emiliana", que logo se estabeleceu com grandes vinhedos no Vales Conchaga, Casablanca, Maipo, Cachapoal, Biobio. Após 12 anos, os irmãos Guilisaste começaram uma iniciativa pioneira passando a apostar na agricultura orgânica e na biodinâmica em seus campos dando origem aos Viñedos Orgánicos Emiliana. Foram também os primeiros a adotar em sua vinícola os padrões internacionais de cuidado e proteção ambiental, através da certificação ISO 14001.

Explicaram também que a bodega possui três linhas de vinhos. A primeira é o "Vinho de Manejo Integrados", onde as uvas são cultivadas de acordo com o respeito ao meio ambiente e os ciclos naturais da terra. Nesta linha se encontram os vinhos Emiliana Varietal, Emiliana Reserva e Emiliana Reserva Especial. Já os vinhos orgânicos são Adobe, Novas e Winemakers Selection. Finalmente, na linha de vinhos “biodinâmicos" temos o Coyam, um excelente exemplar, feito a partir de um blend das uvas Syrah, Cabernet Sauvignon, Carménère, Merlot, Petit Verdot e Mouvedre; e a grande estrela , com Syrah, Cabernet Sauvignon, Carménère e Merlot.

Exportados para Ásia, Europa, América do Sul, Estados Unidos e Canadá, os vinhos de Viñas Emiliana são reconhecidos pelo seu carácter e expressão, resultado de todo um trabalho junto à natureza, de forma sustentável e busca constante pela excelência e qualidade de seus produtos.

COYAM 2007


Na ocasião provei um Coyam 2007, merecedor de honrados 93 pontos pela Revista Wine Esthusiast e Robert Parker. Gostei tanto que trouxe duas garrafas pra casa, porém apenas uma sobrevive adormecida na minha adega. Coyam é um nome que provém da língua mapudungun que significa “bosque de carvalhos”. Excelente vinho, bem encorpado, macio, tânico, mas muito elegante. No nariz, é explosivo e frutado como um suco de ameixas negras e amoras misturado com figos secos. Seu teor alcoólico é grande, 14,5%, mas o vinho é muito equilibrado. Definitivamente, é um vinho que merece aeração para suavizar seus taninos e permitir a total libertação dos seus ricos aromas. Um vinho que, definitivamente, pode envelhecer ainda mais um cinco anos. Preciso só é de paciência para esperar esse tempo.

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 2

Seguindo nossa história do vinho, neste segundo episódio Johnson encontra a fonte para o drama da antiga Atenas nos ritos de Dionísio, deus do vinho. Motivo suficiente para ele viajar para a Grécia e para Itália.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A História do vinho por Hugh Johnson (Vídeo) - Episódio 1

Este documentário que você poderá, a partir de hoje, acompanhar no Espaço do Vinho é apresentado por ninguém mais ninguém menos que Hugh Johnson, um dos maiores especialista de vinhos de fama internacional, que aqui se engaja em contar a história do vinho.

Começamos pelo "berço do vinho", as montanhas do Cáucaso na Geórgia. Lá o vinho caseiro ainda é feito da maneira tradicional, com suco, cascas e engaços fermentandos juntos em jarros de barro enterrados no chão. As evidências arqueológicas encontradas na região provam que a vinificação está conosco há mais de 6.000 anos. Vemos também a mais antiga representação do ato de beber vinho na arte da Mesopotâmia e muitas outras coisas curiosas. Aproveitem!!!


Oz Clarke passa por aqui

Oz Clarke, o famoso crítico britânico de vinhos, está no Brasil visitando as vinícolas da Serra Gaúcha, junto com mais quatro jornalistas internacionais. Ele visitou diversas bodegas na região. Para quem não conhece essa figura, sugiro buscar os vídeos do divertido seriado Oz and James's Big Wine Adventure, um programa da BBC no qual o jornalista automobilista James May, que nada entendia de vinhos, é devidamente tutoriado por Clarke numa imersão pelo mundo do vinho.

A primeira temporada se passa na França e o segunda na Califórnia. No You Tube você encontra trechos da série. Aqui segue uma pequena amostra deste divertido programa.

Nesta primeira série, focada no vinho francês e transmitida pela primeira vez no outono de 2006, Clarke e May viajam por várias regiões francesas em um jaguar conversível.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

François Mitjavile e seu raro Tertre Roteboeuf (Saint-Emilion)

TRF-St Emillion


A primeira vez que ouvi falar de François Mitjavile foi lendo “Confessions of a Wine Lover”, livro de Jancis Robison publicado em 1997 e que recentemente foi traduzido para português (Confissões de uma Amante de Vinhos). Mitjavile possui uma propriedade pequena mas de grande renome internacional graças a sua excepcional vinificação e ao terroir muito especial. A propriedade está situada em St. Laurent-des-Combes, alguns quilômetros ao sudeste da charmosa cidade de Saint-Émilion. A vinícola está em uma pequena casa de pedra do século 18 e seu nome, "Rotebouef", tem origem no fato de que no passado, ante de se plantar vitis vinífera, o terreno da propriedade era utilizada para alimentar o gado.

François se responsabilizou pela propriedade que era de seu sogro em 1978, mesmo ano de sua primeira safra do vinho "Tertre Roteboeuf". Antes disso, trabalhou dois anos no Château Figeac. Seu sucesso começou com a safra de 1985, elogiada por Jancis Robson neste livro, e também pelas sucessivas críticas positivas de Robert Parker.
Os 57 mil metros quadrados de sua propriedade estão divididos entre 85% de merlot (com cerca 45 anos de idade) e 15 % de cabernet franc (com cerca 6 anos de idade).

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O solo fresco da vinhedo tem mais de quatro camadas de diferentes tipos de argila sobre pedregulhos, muito adequado a merlot. François normalmente espera ao máximo para fazer sua colheita no intuito de adquirir uvas perfeitamente maduras, resultando em um vinho delicioso, mas corre sempre o risco de ter suas uvas destruídas caso o tempo e as condições climáticas não favoreçam a região.

A característica desta colheita, bem tardia, combinada com o longo período de fermentação, com uma extração a 35° C, resulta em vinho poderoso, enérgico e muito bem-estruturado, onde frutas frescas, taninos (ligeiramente degradados) e acidez devem se encontrar em perfeita harmonia. Mais uma vez essa fermentação a 35° C é muito arriscada, pois o vinho pode virar vinagre. Mas segundo Mitjavile, suas leveduras naturais podem facilmente lidar com esta temperatura de fermentação. Seu rendimento é muito baixo, cerca de 3.600 litros por hectare, ou seja, produz, no máximo, aproximadamente 20 mil litros, o que encarece ainda mais o custo do vinho.


Talvez o melhor segredo para produção de seus vinhos espetaculares seja realmente sua grande paixão pelo que faz. Aos 26 anos, François abandonou o promissor negócio de transporte rodoviário, herdado de sua família, para se dedicar ao mundo dos vinhos.

No vídeo acima temos o privilégio de perceber a delicadeza, o carinho, a paixão e a dedicação com que François Mitjavile fala sobre seu vinho. Vale conferir!

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Dois encontros com Émile Peynaud

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Depois de encontrar uma entrevista de 1980 com Émile Peynaud falando com toda a sua genialidade no clássico programa “Apostrophes”, do jornalista Bernard Pivot (o mais visto nas noites de sexta-feira na França até junho de 1990), resolvi escrever este post com o objetivo de falar sobre este mito do mundo do vinho e a possibilidade de vê-lo em duas célebres entrevistas.

Émile Peynaud foi responsável por diversas pesquisas na estação agronômica e enológica de Bordeaux e pela formação de importantes enólogos na Escola Superior de Enologia que hoje leva seu nome. Peynaud foi também responsável pela recuperação e renovação de muitas vinícolas e vinhos famosos, atuando como consultor, entre outros, dos Cheval Blanc, Léoville-Poyferré, Châteaux Lafite, Pichon-Lalande, La Lagune e Pape Clément. E escreveu diversos livros, entre eles o clássico "
O Gosto do vinho” que expõe suas consagradas ideias e pontos de vista sobre esta bebida que tanto amamos.

No primeiro vídeo Émile Peynaud é entrevistado junto com
Alexis Lichine, um escritor russo que ficou famoso na França pelo importante papel que exerceu como negociante do mundo do vinho (foi o diretor de exportação do Château Haut-brion) e como proprietário do Château Prieuré-Lichine e sócio do Château Lascombes no Médoc. Nessa entrevista, Lichine antevê que a França poderá perder sua posição de destaque no mercado internacional, pois apesar de produzir um ótimo vinho, não estava engajada para se manter como a maior produtora, exportadora e consumidora de vinho no mundo. Hoje vemos que ele estava certo.
Émile Peynaud, nesta mesma entrevista, nos ensina a degustar um vinho tendo a mão uma taça de Château Haut-Brion 1971 que ele descreve como um vinho já envelhecido apesar de ter apenas 9 anos de idade.

A segunda entrevista, intitulada “
La civilisation du vin” e realizada oito anos mais tarde, em 9 de dezembro de 1988, no mesmo programa e pelo mesmo entrevistador, tem nada mais nada menos que Émile Peynaud e Jancis Robinson (a famosa master of wine inglesa) juntos com outros convidados ilustres.
Nesta entrevista os convidados de Bernard Pivot se reuniram em torno de uma mesa para discutir a civilização do vinho e provar alguns rótulos. Marcel Lachiver, historiador francês que na época laçava seu livro “Vins, vignes et vignerons: Histoire du vignoble francais”, abriu o debate falando sobre a história das videiras, das vinhas e do vinho, seguido por Jean François Bazin, um político e jornalista que nos falava sobre o seu Borgonha favorito, o Montrachet, sobre o qual também estava lançando um livro. Já Jancis Robinson falou sobre o que a levou a trabalhar com vinhos. Robinson contou que, ainda jovem, percebeu que "havia algo além do vinho no copo, um outro mundo…" e que após uma visita a região de Vaucluse descobriu que a comida e o vinho seriam o objetivo de sua vida.
Na mesa Michel Dovaz, jornalista francês que participou do
Paris Wine Tasting e que apresentava seu livro “Encyclopedie Des Crus Bourgeois Du Bordelais”, falou sobre os vinhos de Bordeaux não classificados, por Napoleão III em 1855 na época da exposição Universal de Paris de 1855 como Premier Gran Cru, mas que hoje são reconhecidos como vinhos de excelência. Émile Peynaud reafirmou e testemunhou sobre as revoluções dos vinhedos de Bordeaux durante seus anos de experiência na região. Jean Dethier, um arquiteto que havia recém apresentado uma exposição sobre os castelos de Bordeaux no Centre Georges Pompidou, explicou como que ele, um arquiteto, se interessou pelos castelos de Bordeaux. Disse que uma nova demanda por imóveis, movida por empreendedores interessados em investir na área da enologia por motivos culturais e econômicos, geraram um debate sobre uma nova postura para a arquitetura na região.
Os convidados no debate tiveram a oportunidade de degustar um “Montrachet” (Borgonha branco da casta Chardonnay, um “Haut Médoc” 1976, seguido de um “Hermitage” de 1979 (syrah), um vinho australiano considerado por Jancis Robson como o único "premier cru" do hemisfério sul, “Penfolds Grange”, e, finalmente, um vinho surpresa que Michel Dovaz identificou como um Grenache Noir.
Infelizmente não pude compartilhar o link desta segunda entrevista pois ele não esta disponível de forma aberta pelo Instituto Nacional Audiovisual. Se você quiser vê-la terá que comprá-la
aqui.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Xerez, um tesouro negligenciado no mundo do vinho

O Jerez, hoje considerado por muitos enólogos um tesouro negligenciado no mundo do vinho, possui uma história tão intensa quanto os sabores que fizeram deste vinho um dos mais apreciados do mundo, durante muito séculos.


Sua denominação de origem é, sem dúvida, a mais comprida Jerez/Xérès/Sherry y Manzanilla de Sanlúcar de Barrameda, resultado de uma longa luta para proteção de seu nome. Luta esta que se deu em duas frentes, a histórica e a linguística.

Os primeiros habitantes da região de Jerez, os fenícios, a chamavam de "Xera" e foram eles que trouxeram as primeiras mudas de videiras. Com a chegada dos romanos a região passou a se chamar "Ceret". Com os muçulmanos, apesar da proibição Coránica (No Alcorão, Allah restringe o uso da bebida alcoólica), a região continuou sua produção com a desculpa de fazer passas e obter álcool para fins medicinais e passou a se chamar "Šeriš" (Sherish). Com a chegada dos reis católicos na época da reconquista, por volta do século XIII, o nome se castelanizou para "Xerez". Na época, as mesquitas que não foram destruídas ou viraram igrejas, foram transformadas em bodegas para produção do vinho.

Por incrível que pareça tiveram que esperar até 1 de janeiro de 1996 para que a União Européia protegesse oficialmente e definitivamente o nome deste vinho de qualidade. Um dos motivos que explica o fato é que diversos países chamam alguns de seus vinhos de Sherry com o objetivo de aproveitar a fama do nome, assim como muitos fizeram com o champanhe.

Ainda que o Jerez fosse conhecido na Inglaterra desde 1340, não virou moda até 1587, quando Sir
Martin Frobisher, um dos tenentes do corsário Francis Drake (conhecido por ter derrotado a Invencível Armada, a maior força naval da Europa na época) atacou o porto de Cádiz, incendiou a maior parte das frotas espanholas e enriqueceu vendendo cerca de 3 mil barricas que roubou desse valioso vinho. Essa invasão de Sherry criou um mercado que cresceu exponencialmente durante quatro séculos. Doze anos depois desse fato, Shakespere escreve sobre a bebida na segunda parte da peça "Henrique IV" com seu personagem John Falstaff elogiando as virtudes e qualidade do Xerez.

"Um bom copo de xerez é de duplo efeito; sobe-me ao cérebro, seca-me ali todos os vapores tontos, obtusos e ásperos que o envolvem, deixando-o sagaz, vivo, imaginoso, cheio de formas leves, petulantes e deleitosas, que, entregues à voz, recebem vida da língua e se convertem em excelente espírito. A segunda propriedade do vosso excelente xerez é a de aquecer o sangue, que, por ser naturalmente frio e pesado, deixa o fígado branco e pálido, sinal certo de pusilanimidade e covardia; mas o xerez o aquece e o faz correr do interior para as partes extremas, ilumina o rosto, que, como farol que é, chama às armas a esse pequenino reino denominado homem. E então todos os moradores e os pequenos espíritos da província se congregam em torno do seu chefe, o coração, que, aumentado e envaidecido com o cortejo, se torna capaz de qualquer empreendimento de valor. Todo esse valor vem do xerez, a tal ponto que a habilidade no manejo das armas de nada vale sem o xerez, que é o que a põe em movimento. O saber não é mais do que uma mina de ouro guardada por um demônio, que só vale depois que o xerez a explora e a põe em obra e uso. E daí que vem a valentia do príncipe Harry, porque o sangue frio que ele herdou naturalmente do pai, tal como terreno mesquinho, desnudo e estéril, foi por ele lavrado, adubado e cultivado com o excelente esforço de beber grandes e grandes quantidades do fértil xerez, que deixou o príncipe ardente e valoroso. Se eu tivesse mil filhos, o primeiro princípio humano que lhes inculcava, seria absterem-se de bebidas fracas e entregarem-se ao xerez."
Esse sucesso, tirando é claro o período das grandes guerras, durou até 1979 quando a região exportava 150 milhões de litros. Porém, a imagem desta bebida associada a antiguidade e o excesso de vinhos de baixa qualidade no mercado fizeram com que as vendas despencassem. Hoje a realidade mudou e se recupera com uma exportação de 50 milhões de litros, sendo que a nova geração consome muito mais os xerez do tipo
Finos e Manzanillas jovens, frescos, transparentes e com menor graduação alcóolica.

A região possui três tipos de solo: o arenoso, o calcário e o argiloso. O segundo é o mais valorizado, possui 40% de teor de carbonato de cálcio, que, por sua pobreza de nutrientes e boa absorção, propicia vinhos com bom corpo, de graduação alcóolica e acidez equilibrada, típicos de um grande Jerez.

terreno

Na região predominam as uvas Palomino (a mais utilizada), a Pedro Ximenez e ainda um pouco de Moscatel.

As Pedro Ximenez (que dão origem ao vinho de mesmo nome), são colocadas sobre placas de amianto, cobertas por um plástico e deixadas ao sol (soleo). Assim, acentuam seu teor de açúcar e após este processo são prensadas. Ao mosto sem fermentação adiciona-se aguardente vínica, se coloca para envelhecer em barris de carvalho e, desta forma, deve permanecer por alguns anos dando origem a um vinho doce, extremamente aromático e saboroso.

Chamadas de Listán, as uvas Palomino, também passam por um processo diferenciado. São esmagadas e fermentadas em "Botas Jerezanas" (barris de carvalho americano ) de 500 à 600 litros que são parcialmente cheias, ou seja, deixadas com ar em seu interior. Ao terminar a fermentação tumultuosa, aparecerá a "flor" uma película de cor branca amarelada de uma levedura do tipo Sacharomyces cujo desenvolvimento determina o tipo de vinho a ser produzido.

Desta forma, se a flor permanecer constante o vinho é encabezado (terá adição de aguardente vínica) e dará origem ao tipo FINO. Caso a flor se altere para uma cor branca grisalha e de espessura mais grossa, o vinho a ser gerado será do tipo AMONTILLADO. E, finalmente, os que não criarem a flor darão origem ao tipo OLOROSO.

As Soleras

A Solera nada mais é do que uma pirâmide formada por pelo menos três pisos de barris, normalmente com uma capacidade de armazenamento de 500 litros. As do nível inferior que se encontram na altura do solo correspondem à Solera. Delas não se pode nunca extrair mais do que 1/3 para comercialização, que deverá ser reposto com o liquido da barrica logo acima conhecida como primeira criadora.

O líquido retirado desta barrica do meio deve ser reposto com o da barrica do topo, a segunda criadora, que por sua vez deverá ser reposto com o vinho da última safra. Entre o início do processo e o término podem transcorrer de 5 anos a um século.


Os Vinhos

FINO O FINO é o mais seco de todos os vinhos de Jerez e tem um sabor delicado e fresco da flor (levedura). Nas zonas costeiras não tão quentes, como Sanlucar de Barrameda onde o fino se chama Manzanilla, essa levedura cresce constantemente durante todo o ano contribuindo com uma grande quantidade de sabores sem afetar sua coloração amarelo palha. As zonas interiores, como a própria cidade de Jerez, são mais quentes, o que provoca a morte da flor de levedura no meio do verão e, como resultado os vinhos, são mais escuros e aromáticos. Normalmente se comercializam com um crianza (tempo de envelhecimento em barrica) de 5 à 10 anos.


AMONT O AMONTILLADO começa como um vinho FINO nas Soleras mas pode permanecer ali por muito tempo. Aos 25 anos adquirem uma cor mais escura e um aroma mais intenso ainda assim sem perder o sabor da juventude.


Sua graduação pode aumentar acima do limite suportado pela levedura por fatores ambientais, como temperatura e umidade, ou pela mão do próprio chefe da bodega. Conforme a flor desaparece o vinho entra em um envelhecimento oxidativo pois a capa da flor que protege este vinho desaparece deixando o liquido em contado direto com o ar. A mistura deste processo biológico e oxidativo dá origem ao amontillado.

oloroso O OLOROSO se obtém dos sistemas de Soleras mas sem criar a flor de levedura uma vez que é "encabezado' (adição de aguardente vincula) até alcançar os 17º, o que impede o seu desenvolvimento. Também são deixados em barricas com dois palmos de ar que, sem a capa criada pela flor, deixa o vinho em contato direto com o oxigênio dando origem a um de envelhecimento bem mais oxidativo. São mais escuros e possuem aromas mais intensos e potentes mas sem aumentar sua doçura. Este vinho é considerado um dos mais longevos do mundo e os melhores são aqueles que possuem um aspecto dourado, aromas de frutos secos e são ricos e intensos no paladar com um final longo e muito seco.


PALO O PALO CORTADO é um variante pouco habitual. Um vinho que inicialmente era fino, ou seja, envelhecido com flor de levedura e que após certo tempo é"encabezado' (adição de aguardente vincula) novamente até alcançar os 17º perdendo assim sua capa de flor e se oxidando como um vinho oloroso. O resultado final é um vinho com caráter e sabor "amontillado" jovem e um final de boca seco de um "oloroso".

Guita
Meu reencontro com o Xerez

Minha redescoberta com o Jerez se deu a uns 10 anos quando um amigo me presenteou com uma garrafa do "La Guita", um Manzanilla produzido por Hijos de Rainera Perez Marin, muito especial.

Este vinho, que depois descobri ser muito barato, cerca de € 6 no Dutty Free de Madrid, passa pelo excepcional processo de envelhecimento que utiliza a levedura flor e o sistema de soleiras, ficando 3 anos em carvalho americano.

De cor dourada amarelo-limão brilhante, o vinho deixa a boca limpa e fresca. Apesar de muito seco tem aromas de fruta confitada, notas silvestres e florais, e frutos secos. O ideal é tomar bem gelado, entre 7 e 9 graus. Na boca, como acabei de dizer, é seco, fresco e nervoso, saboroso, equilibrado, muito aromático (no retrogosto com mais aromas para o nariz) e persistente.

É uma super pedida para abrir o apetite e/ou comer junto com uma azeitona, lula a dorê, ostras ou, até mesmo, um bom presunto. Mas não se iluda! Este vinho pode ir além, sendo harmonizado nos limites de sua imaginação. Por que não com uma salada, pescado em conserva ou mesmo um bom prato de salmão ou um risoto de frutos do mar? Infelizmente não o encontrei em nenhuma importadora no Brasil. Mas se você souber de alguém que venha da Espanha ou faça uma escala em Madrid vale essa encomenda boa e barata.